Vasco na Naite
- Merda! Já estava de novo atrasado. Vasco sai religiosamente todas as sextas-feiras. O itinerário é sempre o mesmo, as pessoas são sempre as mesmas. Também numa terra pequena e culturalmente no século XIX, o que se podia esperar?
- Merda!
Voltou a esquecer-se da escova de dentes no bolso de trás, junto à carteira, só reparou porque à última da hora teve que tirar as chaves de casa do bolso para voltar a entrar dentro de casa e verificar, pela quarta vez, se se teria esquecido de desligar o gás.
Finalmente na rua, dirige-se a passos apressados para o Europa, a tasca mais ranhosa de Santarém. Mas que poderia fazer? A malta junta-se toda lá e a cerveja é mais barata...
- Se calhar é mais barata porque os gajos poupam muito no detergente... – pensou no meio de um vómito.
- Ó Vanessa, é uma cerveja, não, não é preciso copo, obrigado!
- Tão meu, comé que vão esses computadores?
- Bem, ...
- Ó Cati, vamos para onde hoje?
Era sempre assim, saía de casa, estava com pessoas que conhecia desde estudante mas raramente, acabava uma conversa. As pessoas à noite, não estão com muita disponibilidade para ouvir, estão mais numa de se mostrarem – e estes mostravam-se muito contentinhos por sinal!
- Então, representas a próxima? Lá iam todos em filinha pirilau para a parte de trás do prédio fumar umas brocas, sem dar estrilho. Qual quê, vinte marmanjos a saírem de um café direitos às traseiras não dá espiga, apenas lhes deu vontade de mijar. E as gajas? A elas também lhes deu a vontade, e depois?
Depois do Europa, tem-se sempre duas ou três escolhas antes da discoteca, a mais concorrida é um bar chamado Doutores e Engenheiros e que é nada mais nada menos que uma garagem com um bar, umas colunas e um écran gigante que passa vídeos da VH1. Neste bar as conversas são imperceptíveis devido aos elevados decibéis da mistela pop-pimba-à-lá-radio-cidade.
- Tão ó Vasquinho tá-se? Olha-me só prás tetas daquela mula! Aquela merda desafia a gravidade, tenho que ver se dou umas voltas naquilo...
As mulas nem sequer reparam no Vasco, só Rita, a hipopótama assanhada. Mas neste momento nem isso, Rita dedica-se ao esforço sobrenatural de tentar fazer o seu corpo dançar.
- Esta Rita a dançar faz-me lembrar a Elaine do Seinfeld.
- Quem?
Já na discoteca, afastados da pista, numa mesa, todos os que acompanharam Vasco, olham-no com um ar completamente esgazeado. Um deles, o João, aproxima-se dele, aperta-o num abraço e diz em tom adulador:
- Vasco és lindo! Estamos todos a reparar que és o máximo e que ficas lindo assim a cantar Pearl Jam com os olhos fechados. Pareces um Deus Grego, uma estrela, e estás cheio de luz, e estou mesmo feliz de te conhecer pá!
- Blargh! O inevitável aconteceu, o João olhava maravilhado para a sua roupa que era um misto de cerveja fermentada com um cachorro e vários copos de Cuba Livre (em honra às minorias oprimidas).
Assim que conseguiu escapulir-se, arrastou-se para casa. Tinha estado uma noite inteirinha com uma bando de gajos a viajar e nem se tinha apercebido.
Deitou-se e antes de adormecer pensou:
- Hoje é dia de falar com a Conchita!